Expectativas conjugais

“Esperava algo bem diferente do nosso casamento!”

Jaime Kemp

Expectativas irreais no casamento podem transformar a fase pós lua-de-mel em lua-de-fel. É preciso aprender a colocar os pés no chão e caminhar juntos

Depois da fase do encantamento, são muitos os recém-casados que entram na fase da desilusão. O cotidiano, as contas, os hábitos de um que passam a irritar o outro, reações inesperadas, atitudes secas, silêncio, e muitas outras facetas vão sendo reveladas e nem sempre são tão agradáveis quanto eram no tempo de namoro.

 

Frases soltas vão revelando descontentamento e frustração:

 

–         “Você está ficando igualzinho ao seu pai!”

 

–         “Quando a gente namorava tudo ia às mil maravilhas, mas agora…”

 

–         “Eu tinha uma certa imagem do nosso relacionamento, mas a realidade está sendo bem outra…”

 

–         “Você é que nem sua mãe! Não pára de reclamar um instante!”

 

Todas as pessoas entram para o casamento com algumas expectativas. Isso é normal. Porém, o que ocorre é que, geralmente, muitas delas são irreais. Elas se originam de heranças e valores familiares, conversas, livros, idéias próprias e também da sociedade e seus meios de comunicação. Além disso, por trazermos nossa natureza pecaminosa para o casamento, acabamos piorando as reações de frustração perante as expectativas não atingidas.

 

No transcorrer do percurso a dois, o tempo também é um fator importante para revelar quais expectativas serão satisfeitas. Por “n” motivos, planos podem ser adiados, mas realizados; emoções podem levar mais tempo para se estabilizar, mas se equilibram; tratamentos podem se estender mais do que o esperado, mas surtem efeito. Por outro lado, o tempo também nos ensina, ou nos permite buscar orientação para lidar com o sentimento resultante daquelas expectativas não atingidas.

 

Ao dar meu curso pré-nupcial para noivos procuro saber, de cada um, as expectativas que estão levando para o casamento. Diante de uma conversa honesta e sincera tentamos ver quais são e quais não são realistas e assim amenizar futuras frustrações.

 

Casar com expectativas irreais e não ter os “pés no chão” por certo trará desilusões, especialmente nos primeiros anos do casamento. Sem perceber, o cônjuge que possui expectativas não comunicadas, baseia sua aceitação do outro na performance por ele apresentada. Se um cônjuge age como o outro espera, ele é aceito. Caso contrário, haverá frustração e briga. A performance se torna a “cola” que segura o relacionamento. Porém, com o tempo, essa “cola” começa a se desgastar, desgrudar, especialmente quando surgem as pressões, tensões e estresse da vida.

 

Outra atitude equivocada é o tratamento baseado no “merecer”: se um cônjuge fez o que o outro esperava, então “merece” receber carinho e atenção. Porém, se não consegue “merecer”, por não atender as expectativas, o amor, em suas várias formas de manifestação, é negado.

 

Esse modo superficial de relacionamento acaba minando o interior do casal. Um se esforça para atingir e não consegue, e o outro por não vê-las atingidas se desestimula.

 

Há ainda outro caso: quando as expectativas não são verbalizadas, o cônjuge que as desconhece age normalmente, não sabendo que aos olhos de seu parceiro, está cada vez “perdendo mais pontos”!

 

Assim não dá mesmo! O amor incondicional precisa permear nossos relacionamentos conjugais. Todos nós, seres humanos, vamos falhar, pecar e nem sempre vamos “merecer” as recompensas de nossos cônjuges.

 

Deixe-me tentar mostrar, na prática, o perigo de ter expectativas irreais no relacionamento conjugal. Vamos ver algumas das mais comuns, apresentadas por noivos cristãos:

 

1.            Se eu me casar com uma pessoa cristã, meu casamento estará sempre seguro e feliz!

 

A Bíblia realmente ensina que o cristão não deve se colocar em jugo desigual com um não cristão. Entretanto, é um erro pensar que o fato de ambos serem cristãos garantirá que o casamento será um “mar de rosas”. Precisamos compreender que além deste pré requisito principal, existem outros fatores importantes a serem considerados. Entender as diferenças de personalidade, de valores, de interesses, os pontos fracos e fortes da outra pessoa são alguns deles.

 

2.            Em nosso casamento não haverá discórdias e brigas como aconteceu com meus pais!

 

A verdade é que, mais cedo ou mais tarde, mesmo que o casal tenha um bom nível espiritual, alguma briga certamente ocorrerá. Em todo casamento sempre haverá diferenças de opinião, de sentimentos e de idéias. Em geral, esses desentendimentos acontecem porque cada parte interpretou reações e ações conforme experiências e costumes vindos da educação recebida e de conceitos adquiridos. Os conflitos, de forma geral, não são negativos e podem até ser construtivos. Fazem parte de uma relação profunda e o importante é lidar com eles da maneira correta. Este é um dos processos para se alcançar maturidade e aprofundar o relacionamento. E aí, surge a inevitável pergunta:

 

–                     Mas qual é, então, a maneira correta para se lidar com eles?

 

–                     Creio que cada casal encontrará seu caminho mas o importante é saber que conflitos podem ser resolvidos. De regra geral, honestidade, sensibilidade, respeito e educação, são elementos importantes para tratá-los de forma a machucar o menos possível. Haverá, inclusive, casos em que será necessário ajuda profissional. (Só um lembrete: não esquecer de orar pedindo a orientação de Deus, principalmente quando tivermos situações delicadas a resolver!).

 

3.            Ele vai liderar o culto doméstico todos os dias! 

 

O conceito de uma esposa sobre o “líder espiritual” pode ser bem diferente do conceito do marido. Há pouco tempo, uma senhora me disse o seguinte:

 

– Antes da gente se casar, líamos a Bíblia e orávamos juntos. Era como meu pai fazia em casa, mas agora…”

 

A Bíblia diz que o marido deve ser o líder espiritual em seu lar. Isso é uma verdade. Partindo daí, uma esposa pode entender que um bom líder espiritual é aquele que faz cultos domésticos todos os dias. No entanto, o conceito de seu marido sobre liderança espiritual pode não ser esse. Neste caso, as expectativas dessa esposa serão frustradas.

 

 

  1. Ela será como a minha mãe – uma mulher virtuosa!

 

Certamente ser como a mulher virtuosa descrita em Provérbios 31.10-31 é um lindo alvo para toda mulher. O ser virtuosa, porém, é um conceito amplo com várias facetas. Se o marido ficar exigindo da esposa sua versão de virtude, a qual é diferente da dela, frustração e desânimo poderão tomar conta de ambos.

 

O marido não deve esperar que sua jovem esposa cozinhe “como a mamãe”. Como será possível concorrer com alguém que tem 20 ou 30 anos de experiência?

 

Em meio a tantas particularidades há algumas expectativas, praticamente comuns a todos que se casam:

 

1. Permanecer casados “até que a morte os separe”. Mesmo aqueles que pensam “se não der certo a gente se separa”, acalentam em seus corações o sonho do casamento para o resto da vida, o qual é um propósito bíblico maravilhoso. O divórcio não faz parte do plano inicial de Deus para o ser humano e foi uma concessão feita devido à dureza do coração: “ ‘Eu odeio o divórcio’, diz o Senhor, o Deus de Israel…” (Malaquias 2.16 e Mateus 19.8).

 

2. Permanecer fiéis. Ao contrário do que muitos pensam, a fidelidade não implica somente em lealdade sexual mas abrange muitas áreas. Por exemplo, há cônjuges que são infiéis através do trabalho, ou seja, se envolvem tanto com a profissão, que acabam se esquecendo da família e se “casando” com a carreira. Outros são infiéis por não conseguirem cortar o “cordão umbilical”, não “deixando” pai e mãe (Gênesis 2.24). Há também os que são infiéis por darem maior atenção e afeto a bens materiais, ao ministério etc, etc.

 

3. Ter um relacionamento harmonioso. É o sonho de todo casal, passar as fases da vida sem muitos desajustes e discórdias. E mesmo em meio a conflitos naturais de uma vida em comum, há muitos atingindo essas expectativas

 

Amigos, não quero ser simplista e dizer que a vida de casado é fácil, pois isso é mentira. Porém, quaisquer pessoas que morem juntas terão que cuidar de seu relacionamento e trabalhar em prol de um bom convívio. Por que, então, não direcionar nossa criatividade, dedicação e tempo para tornar mais compensadora nossa vida ao lado da pessoa com quem nos casamos?

 

Normalmente, os casamentos passam por três fases até chegar a um ajustamento. Se conseguirmos identificá-las será mais fácil trabalhar nelas de forma consciente, lidando com as expectativas, estejam elas sendo atingidas, ou não. São elas: encantamento, desilusão e maturidade.

 

Querido leitor, em qual destas três fases você se encontra?

 

Marido, esposa reflitam sobre o momento de vida que atravessam e dêem sugestões, como pessoas e como casal, de como superá-la, ou cultivá-la. A Bíblia contém inúmeras orientações para ajudar e direcionar nossos relacionamentos. Leia o livro de Efésios, por exemplo, e depois compartilhem seus pontos de vista e orem pedindo a Deus ajuda para implementá-los.

 

Minha expectativa (real) ao escrever este artigo é que vocês, queridos amigos, saibam que não estão sozinhos e que há esperança para seu casamento!

 

 

 

Jaime Kemp é doutor em ministério familiar e diretor da Sociedade Religiosa Lar Cristão. Foi missionário da Sepal por 31 anos e fundador da missão Vencedores por Cristo. É palestrante internacional e autor de 39 livros. Casado com Judith, é pai de três filhas e avô de dois meninos.

 

 

 

Sugestão de leitura: Conversando a gente se entende! Jaime Kemp – Editora Sepal.

 

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